Entrevista Exclusiva com Caio Borralho para o UFC 334
Batemos um papo com o número 5 do ranking dos médios do UFC e Embaixador da Stake, Caio Borralho, que se prepara para uma das lutas de destaque do UFC 334, contra Yousri Belgaroui.
O astro da Fighting Nerds falou sobre a volta depois da lesão, o caminho até o título mundial e o momento atual da divisão dos médios.
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Como tem sido o camp de treino?
Tem sido incrível, cara. É muito bom voltar pro octógono. Não foi tão rápido quanto eu queria. Eu queria ter voltado em agosto, mas precisei fazer uma cirurgia na costela.
Faz 13 meses desde a minha luta em Paris, então, mesmo com a lesão, eu lutei duas vezes este ano.
Pode contar pra gente sobre a sua cirurgia na costela?
Eu quebrei a costela duas semanas antes da luta com o De Ridder. Lutei com a costela totalmente quebrada. Foram as duas semanas mais malucas da minha vida, uma guerra mental. Dependia só de mim ir ou não pra luta e, graças a Deus, consegui passar por essas duas semanas e lutar.
O mais louco dessa lesão é que, depois da luta, fui ao meu médico e ele disse que a gente tinha que esperar a costela cicatrizar. Esperei 10 semanas e continuava com dor, então voltei ao médico e fizemos uma ressonância. O resultado mostrou que a costela tinha se separado ainda mais depois das 10 semanas, e tivemos que fazer uma cirurgia de emergência no dia seguinte. Colocaram uma braçadeira de titânio pra manter a costela no lugar e ela cicatrizar mais rápido, e depois ainda levou mais 10, 12 semanas. Por isso eu tive que esperar tanto.
O UFC sabia da gravidade da lesão antes da luta?
Não! Nem a minha família sabia. Meus quatro treinadores, o resto da minha equipe e a minha esposa sabiam. Mas eu não contei pra minha mãe nem pro meu pai. Lutar já deixa eles muito preocupados, então não quis que se preocupassem mais do que o necessário. E eu lutei e ganhei!
O que significa pra você ter um lugar de destaque no card principal de um dos maiores eventos do ano?
Cara, eu me sinto abençoado. O UFC sempre me coloca sob os holofotes. Eu sempre lutei em card principal e já fiz dois main events. Só estive nas preliminares uma vez, e me sinto muito bem com isso. O UFC está de olho no meu trabalho dentro e fora do octógono. Eu já fui reserva do cinturão, e sinto que estou numa boa posição.
Eu tinha lutado seis vezes em Vegas e pedi pro UFC me deixar lutar na T-Mobile Arena. Me deram o co-main event da luta do BMF, e foi uma experiência incrível, porque eu já fui muito lá assistir a lutas. Agora pedi o MSG, e eles me deram. É contra um cara casca-grossa, mas é uma luta ótima, num card ótimo, e sinto que eles valorizam mesmo o meu trabalho.
Você nunca lutou no MSG. Esse é um sonho antigo?
É o lugar onde muitos dos maiores já lutaram. Já estive no córner lá, senti a energia e soube que precisava lutar aqui. É um evento enorme, e sinto que vou estar dividindo o mesmo lugar com Muhammad Ali, Mike Tyson e todos os maiores.
A divisão parece meio parada por causa das reclamações públicas do Sean Strickland sobre o contrato. O que você acha dos comentários dele?
Eu não sei que tipo de acordo o Sean fez com o UFC. Quando vi isso pela primeira vez, pensei: o Sean quer mais dinheiro, e como campeão você pode pedir. Mas depois vi o Dana falando que o Sean assinou um contrato em maio e já quer sair dele.
Isso não faz sentido pra mim. O UFC é tão grande, cara, que nenhum atleta vai ser maior que o UFC. Você faz parte da empresa e tem que fazer o que tem que fazer. Mas não culpo o Sean por pedir mais dinheiro. Acho que tem mais a ver com o fato de ele estar quase parando a carreira. Ele sabe que está a uma ou duas lutas da aposentadoria, mas acho que ele já não se importa mais.
Você acha que o Strickland está perto de se aposentar?
Acho que sim. Acho que, se ele realmente lutar com o Imamov e ganhar, ele se aposenta.
Parece que o Strickland assinou um contrato novo há pouco tempo. Se ele se recusar a lutar, você acha que o UFC deveria tirar o cinturão dele?
Acho que eles podem fazer isso a qualquer momento. Não tiraram o cinturão do Makhachev, mas ele devia ter lutado em janeiro e se recusou, aí eles falaram: foda-se, vamos fazer o cinturão interino.
Acho que podem colocar o Imamov contra outro nome grande pelo interino e, se o Strickland ficar nessa narrativa por muito tempo, vão tirar o cinturão dele. Não vão deixar ele segurar a divisão. E, de um jeito bom, todo mundo quer ver eu e o Imamov de novo. Da última vez, eu tive que cortar peso duas vezes em três semanas, porque era o reserva do cinturão.
Se tirarem o cinturão do Sean, você acha que uma vitória convincente aqui é suficiente pra você ganhar uma disputa de título?
Com certeza. Meu nome já está na mesa. Isso é inegável. Ninguém na divisão fez o que eu fiz, e eu enfrentei caras duros. Acho que, depois de uma vitória grande no dia 14 de novembro, com certeza.
São três caras: Brendan Allen, Joe Pyfer e eu. Parece que o UFC não quer o Brendan, o Pyfer já tem luta marcada pra fevereiro, então talvez seja um grande momento pra mim, com um nocaute relâmpago ou uma finalização. Pode acontecer.
Pouca gente toparia lutar contra alguém fora do ranking sendo o número 5. Como essa luta aconteceu?
Eu pensei: que porra é essa, isso não faz sentido! Eu era reserva do cinturão, depois lutei com o De Ridder, e agora vou enfrentar um cara com três lutas no UFC?!
Foi isso que eu pensei de primeira, e pedi pro meu empresário avisar o UFC que era assim que eu me sentia. Mas depois, quando eu voltava do Arizona, da luta do Jean Silva, num voo de 13 horas, pensei: “Não tenho nada a perder. Se eu perder pra esse cara, ou pra um top 5, tanto faz. Eu sou lutador, e lutador luta.”
Eu nunca digo não pra ninguém. Vou lá provar que existem níveis nesse jogo.
Você acha que o UFC está acelerando a trajetória do Belgaroui por causa das semelhanças da carreira dele com a do Alex Pereira?
Acho que existe uma boa narrativa, de treinar com esses ex-campeões. Mas acho que também tem a ver com o estilo dele. O UFC está virando mais entretenimento do que esporte, e ele é um cara que está nocauteando todo mundo. É um striker, e eles valorizam muito os strikers. Eles têm duas opções: ou o nocauteador vence e eles investem nisso, ou eu venço e eles usam isso pra me construir rumo ao cinturão.
O UFC não tem nada a perder nessa luta.
Tem se falado muito que o UFC se importa mais com entretenimento do que com talento, já que cortaram o Farid Basharat, que tinha 7 vitórias em 7 lutas no UFC. Você acha que isso é verdade? E você sente pressão, como lutador, pra buscar um nocaute ou uma finalização?
Acho que essa é a música que está tocando agora, e a gente tem que dançar conforme a música. Mas, pra mim, vai além disso. É sobre como você se conecta com os fãs. É sobre quanta gente você atrai pra assistir às suas lutas. Esses caras que foram cortados não são muito conectados. Não chamam muita atenção. Mesmo sendo muito bons, não são conhecidos.
Com certeza isso passa pela minha cabeça, mas não me preocupa. Venho fazendo lutas ótimas, trocando em pé e nocauteando. Estou dançando conforme a música. Mas não me leve a mal: eu quero a vitória e vou fazer o que for preciso pra vencer.
Acho que sou mais do que só um lutador pro UFC. Eu me conecto bem, trato todo mundo bem e tenho uma ótima base de fãs.
Em termos de marketing, você fez isso muito bem com a Fighting Nerds. É algo que você passa pros lutadores mais novos?
Com certeza. É uma coisa que eu sempre falo no meu Instagram. Estou tentando ser um exemplo pros lutadores jovens, principalmente do Brasil. Tem que aprender inglês pra poder se expressar e contar bem a sua narrativa.
Uma ou duas vezes por mês, eu volto na minha academia e converso com os meus alunos sobre esse tipo de coisa, passando adiante como se comportar, de geração em geração.
Israel Adesanya vs. Shara Bullet deve ser anunciado. Chegou a existir alguma conversa pra você lutar com um dos dois?
Depende dele. Se ele ganhar a próxima luta e voltar querendo o cinturão de novo, talvez a conversa possa surgir. Mas acho que não.
Acho que ele ainda tem mais duas ou três lutas pela frente. É um cara que já conquistou tudo, já é astro, tem muito dinheiro. Sou muito fã dele, e a gente já teve uma conversa em que falamos que, se lutássemos, seria pelo cinturão. Mas, por enquanto, acho que não. Só que tudo pode acontecer nesse negócio. Se me oferecessem, eu diria sim. Ligaria pra ele, falaria que é uma honra e que vamos fazer!
O que você achou de Khamzat vs. Strickland e o que você imagina pro Khamzat daqui pra frente?
Eu treinei com o Khamzat anos atrás, na Suécia. Fui parceiro de treino dele quando ele ia lutar com o Nate Diaz. Ele é um cara muito gente boa e, quando a gente se encontra, a gente se atualiza e deseja o melhor um pro outro.
Quando meu filho e minha filha nasceram, ele me mandou mensagem, e a gente se conectou muito bem.
Mas essa é uma luta que pode acontecer a qualquer momento. Nós dois estamos no topo da divisão e, se ele quiser voltar, precisa lutar por isso. Não acho que ele mereça ir direto pro cinturão de novo, e ele precisa enfrentar um grande prospecto.
Talvez depois dessa luta, ou depois do Ramadã, a nossa luta possa acontecer, e eu aceitaria na hora.
Nunes vs. Harrison é o co-main event. Quem é o seu palpite?
Eu voto na Nunes de olhos fechados. Acho que vai ser exatamente igual às lutas dela contra a Ronda Rousey. Todo mundo achava que ela não tinha chance, mas ela chegou lá e provou que todo mundo estava errado.
A Ronda não era uma garota que se sentia confortável levando soco na cara, e acho que é a mesma coisa com a Kayla.
Todo respeito à Kayla, eu adoro ela, acho ela muito boa, muito dominante, muito forte, mas, quando o assunto é levar soco na cara, não acho que ela chegue nem perto do nível da Amanda.
Acho que a Amanda vai destruir ela em até dois rounds... com todo respeito!
Hokit vs. Gane: como você vê essa luta se desenrolando?
Acho que o Gane é demais pro Hokit agora. O Hokit é um peso-pesado pequeno, e acho que ele nunca enfrentou ninguém como o Cyril Gane. O cara é grande, atlético e muito rápido. Com certeza o Hokit consegue levar ele pro chão, mas acho que a diferença de peso, de tamanho e de atletismo vai pesar muito.
Eu vou de Gane, e acho que ele vence por nocaute.
Seu ex-companheiro de equipe Mauricio Ruffy levou um nocaute feio na última luta. Você chegou a conversar com ele sobre voltar pra Fighting Nerds?
A gente é amigo. Quero o melhor pra ele. Ele sentiu que era hora de seguir em frente na carreira. Acho que ele teve uma ótima conexão com a academia do Volkanovski e recebeu muita atenção lá, e eu só desejo o melhor pra ele. Fiquei muito triste de ver ele perder daquele jeito. Eu estava no córner dele quando ele entrou no UFC, então foi difícil de ver.
Ele estava indo tão bem, defendendo as quedas, mas aí um segundo de desatenção e custou caro.
Não acho que ele volte pra Fighting Nerds, mas é alguém que fez muito pela equipe. Foi um ótimo exemplo, e a gente valoriza isso. Mas, por enquanto, é só amizade.
O Volkanovski mostrou de novo que é uma lenda. Onde você o coloca na lista dos maiores de todos os tempos?
Se eu falar de QI de luta, talvez ele esteja no top 5. O jeito como ele se comporta e se adapta na hora de lutar, o QI dele é gigantesco.
Ele sabe lutar contra qualquer estilo e faz isso muito, muito bem.
Mas, agora, ele precisa lutar com o Jean Silva. O Jean é o próximo, e vai ser ótimo, dois carecas se enfrentando!
Do ponto de vista de treinador, quanto material de luta você vai ter que assistir pra ajudar o Jean Silva a vencer o Volkanovski?
Ah, muito, cara! A equipe já está fazendo isso. O Jean já está treinando e pensando no Volk.
Ele tem colocado o pessoal pra imitar o Volk, e a equipe tem feito muito estudo de vídeo com IA. O Jean vai chegar nessa luta sabendo tudo sobre o Volkanovski. A gente consegue tirar muita coisa de todo esse material.
Nesse caso, quem você gostaria de ver ele enfrentando? Sterling, Murphy, Pico?
Nenhum desses três! Eu quero ver ele lutando de novo com o Vallejos.
O garoto está indo muito bem no UFC e, se ele vencer o Aljo, acho que essa é a luta.
Ouvi uns boatos de que o Volk vai subir de categoria, então, se ele subir, tem que ser Silva vs. Vallejos. Colocar esses dois prospectos pra se enfrentarem por cinco rounds é a luta que tem que ser feita.
